segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

#5 - A mulher

Todos os dias disposta a tê-lo sorrindo, ela pautava sua vida a partir das escolhas dele. Escritora talentosa, deixou a carreira literária de lado ofuscada pelo sucesso do marido. Embora não expusesse isso, carregava frustrações latentes por ter abdicado das ambições profissionais. Acompanhando o escritor por todas as suas viagens, a mulher conhecia mais a vida do escritor que ele próprio, decorava os nomes dos amigos e dos não-amigos, das esposas dos amigos, das amantes, dos fãs importantes. Ela era esposa, mãe, secretária, acompanhante e conselheira. Ela era ele, até o dia em que ele não quis mais assim.

Sua vida desmoronou naquele dia, havia um hiato de mais de dez anos. Ela se deu conta de que conhecia todas as pessoas que conviviam com seu marido, mas que em todo esse tempo, não havia convivido com ninguém, não criara laços, nós ou que fosse. Tinha parado de escrever, de ir ao cinema, de sonhar, de ser chamada pelo nome.

Teve de renascer aquele dia, num parto solitário e dolorido, que durou por muito tempo, porque ele nunca cortou definitivamente seu novo cordão umbilical.

sábado, 6 de fevereiro de 2010

#4

Nosso protagonista, nesse momento da vida, começa a conviver com dúvidas antes inimagináveis. Ele estaria no lugar certo? Era mais feliz agora que antes? Teria valido à pena a mudança de rumo? Ele continuava a ver beleza na menina do interior, nesse ponto nada havia mudado. Só que de uma hora para outra, as suas certezas tornaram-se escassas, seus desejos efêmeros, e ele iniciou toda história que eu pretendo contar aqui.

Sem saber, ele passou a conhecer e conquistar mulheres, seguidamente, compulsivamente, e não conseguia abandoná-las. A primeira a passar por isso foi a esposa, a segunda, a moça linda do interior. Depois dela vieram a terceira, a quarta, a quinta...

No próximo texto, começarei a dissertar sobre cada uma das mulheres, e sobre o que o homem viveu com elas. Por enquanto é só.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

#3

Ele, que nunca havia traído, teve certeza de que era hora. Depois recuou. A moça de interior sabia que ele era comprometido e ele queria o respeito dela. Passaram-se alguns dias, foi para casa, e divorciou-se. O escritor, dono da razão do amor, responsável pelas palavras que tinham poder, fiel à sua doutrina de apenas conquistar mulheres, apaixonou-se. O homem desconstruiu sua vida, transgrediu as regras, mergulhou na vontade.

Por meses ele conseguiu viver o sonho, trouxe a moça à capital, levou-a ao teatro, ensinou-lhe cinema, música, até literatura. Discutiu os próprios textos, recitou poemas, e ela decorava cada palavra que saía de sua boca. Ela amava cada vírgula que ele proferia, morava em suas palavras e chorava com os diálogos que construíam.

O homem, que não era besta, enxergava seu poder. Na verdade, esse cara sabia exatamente o que as mulheres queriam ouvir. Cada uma delas.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

#2

Uma mulher cruzou seu caminho, aparentemente sem nenhuma relevância. Ele, que nutria uma vontade exagerada de conquistar todas as moças, não se opôs à ideia de tê-la.

Começou pelo ego, como sempre. Só que aquele rosto doce realmente havia lhe encantado. Ele não sabia dizer ao certo por que, mas os cabelos longos, a palavra baixa, a transparência de sentidos e de sentimentos, tudo isso misturado, tinha mexido com sua cabeça. E tinha o sotaque também, interiorano, que ele não conhecia. Eles conversavam muito, e os olhos da menina brilhavam com as dissertações do escritor sobre o amor. Ela delirava ao ouvi-lo contar suas histórias, imaginando os lugares que ele tinha conhecido, as línguas que ele falava. E ele, delirava também, ao enxergar na moça aquilo que não mais via em outras: uma paisagem a ser pintada.

Foi nesse dia que o homem resolveu retomar a vida. Viver de novo. Dar novas cores ao quadro, que parecia finalizado, da sua vida.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

#1

Ele cresceu como qualquer homem. Errando, errando... e foi construindo a vida baseada nos erros que não voltaria a cometer. Até aí nada muito diferente dos amigos que o cercavam. Ele namorou mulheres bonitas, que se vestiam bem, que tinham bom gosto. Visitou lugares exóticos, morou na Europa, voltou, foi novamente a passeio, na companhia da mulher que elegera para ser a oficial. O homem - que não tem nome - sempre foi feliz no relacionamento. Um tipo de felicidade que ele não expandia à sua carreira profissional. Incomodava-se com tudo que era ligado a trabalho, prazos, compromisso, salário... Decidiu, portanto, viver de literatura e do dinheiro que porventura ganhasse com suas letras.

O escritor sabia que seus melhores textos eram sobre o amor e os pequenos traumas pelos quais passava, vez ou outra. Ele fazia sucesso entre as mulheres, e orgulhava-se disso em cada gesto que escolhia fazer, em cada palavra que decidia escrever, em cada roupa que resolvia vestir. Entretanto, isso sempre foi apenas uma forma de se sentir melhor e de escrever melhor. Até que um dia, foi posto de frente com um problema pelo qual nunca passara. Desde esse dia, sua vida estagnou.

sábado, 30 de janeiro de 2010

iludindo

eu estou leve. sorrindo por causa das mentiras que eu invento para mim. a monografia entregue, o blog sendo lido por milhares de pessoas, o livro publicado, o amor do meu momento ao lado na cama, a voz dela no outro lado da linha a ouvir as novidades... eu saio da gávea, ela me espera num bar qualquer da zona sul, faz sol, eu acendo um cigarro, tiro os óculos e sento para tomar umas cervejas. a gente conversa sobre a semana, abre o jornal e decide a qual filme vai assistir. depois voltamos para casa, ou paramos novamente noutro bar, jantamos, amamos, e pronto. no dia seguinte eu vou trabalhar, ela também, e depois saímos para ouvir música em qualquer lugar que ainda toque música nessa cidade.

só se é feliz idealizando a felicidade. o resto do tempo a gente desperdiça vivendo.

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

leblon

o leblon é limpo demais. os rapazes usam claro, as moças colorido, a menina da novela come do seu lado, o mesmo sanduíche que você. gargalha alto, porque no leblon tudo pode quando nada acontece. ele não é falso como canta caetano. falsos somos nós, fantasia de nós mesmos ao ver a atriz tomando sorvete.

leblon é desfile, piso branco, é primavera. o bairro é virgem, sóbrio, dorme e acorda cedo. é um bairro que vai à escola, leva merendeira e não sua no pátio.

eu, que sou copacabana, nem me importo, vou lá, fantasiado, e depois volto para vestir preto e jantar em casa.

a dois

não havia um sorriso que ele não tivesse tentado, nenhuma palavra que ele não tivesse dito. ele tentou músicas, fotografias, fotografias que movimentam-se, tintas na parede, gritos, dizia que amava, mandava tomar no cu. ela se aproximava, parecia arriscar, mas recuava novamente. ela se perdia na quantidade de ações e posições que ele assumia, mas quando choravam juntos era catarse. quando trepavam também. só que havia vezes em que um trepava sozinho, enquanto o outro chorava. depois invertiam.

quando ela se acostumava com o sorriso de lado, ele mudava, prevendo errado. quando mudava o tom, ela já conseguia ouví-lo, e ensurdecia. quando passara a apreciar as paredes, chegava à casa e elas haviam mudado de cor.

e eles viveram assim por muito tempo. até o dia em que morreram.

tentando chorar e trepar em uníssono.

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

título

minha paciência acabou. não restou nada, nem para escrever a próxima linha.

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

ao lado

eu te olho assim, de longe ou de perto, com as maçãs do rosto inchadas, vermelhas, de choro ou de riso. com essa pele infantilmente macia, que não carece de carinho. com esses olhos que piscam em câmara lenta, e refletem o mundo mais colorido. com essas mãos pequenas, quase sem unhas, que nunca pensaram arranhar ninguém.

eu vejo você, assim, a esperar por algo que lhe manche. por palavras boas ou más, ditas de forma precisa ou imprecisa. esperando pela resposta da pergunta que você nunca me fez. pelos conselhos de caminhos a seguir. pelos mapas, trilhos, e atalhos.

eu te vejo ver. te vejo ver o mundo através das tuas retinas de filtro, que tanto sonho em transplantar para mim. eu te enxergo, bela, a se perder no campo da vida. e a se encontrar repentinamente, quando chocada com ela à sua frente.

eu acompanho, próximo, o seu caminhar. o seu recolher de flores e o seu quebrar de espinhos. sinto contigo o cheiro das flores que você escolheu cheirar, a dor nos pés pelo calçado que você decidiu calçar, e as alegrias que você elegeu para lhe fazerem sorrir.

ainda assim, eu permaneço invisível para não te atrapalhar. receoso por querer, às vezes, modificar teu rumo tão singelo. eu jamais poderia intervir. não eu, que te persigo para aprender contigo cada detalhe de como é viver.

livre.

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

eu não

eu não gosto de piercing, tatuagem, alargador. não tenho paciência pra halteres, micareta, cordão, terra batida. odeio rave, bala, doce, eletrônico, horas passando e luzes piscando. enjoo com santo, benção, reza, deus. me irrito assistindo ao fantástico, lendo a veja, saindo pra almoçar no domingo, levando o cachorro pra passear. detesto maconha, maconheiros, reggae, dread, artesanato, pulseiras pra usar no pulso do pé e pra usar no pulso do braço. desconsidero paulo coelho, crepúsculo, cury e surfistinha. cuspo na madonna, no cadáver do michael jackson, no novo de sobrenome timberlake, na nova spears. sonho calar a ana carolina, o jorge vercilo, a roberta sá, e todas as mulheres que cantam iguais umas às outras. xingo o lula, o serra, a marina e a oposição de cada um que é o outro. não quero ver as atualizações do orkut, ser popular no twitter, ter dez mil no facebook. não quero dar dez num dia, bater recorde, punheta, ou panela. não quero que briguem comigo por causa disso ou daquilo. não quero brigar, não quero discutir, não quero argumentar. não sei, não posso, não devo, não faço.

eu gosto do que é limpo, do rock, do anticristo, do cinema, urbano, de literatura, de mais rock, de menos monopolítica, de saber do importante, de ser amigos dos bons, de dar uma boa. de ser, viver, viver, até morrer.

eu quero só você, aqui, comigo, vendo filme enquanto o mundo cai sobre e abaixo de nós. porque ele já acabou mesmo e nós sobramos.

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

nos nossos lugares

olha dessa janela aqui, fica tudo bem mais claro.

é desgastante quando repetimos durante dias conversas tão óbvias. enquanto isso a vida segue e vai carregando quem fala e quem ouve, quem xinga e quem pede perdão. e as personagens se invertem, porque quando a vida segue, ela troca protagonista por antagonista, certo por errado. a conversa continua a mesma, mas espelhada. é tempo de empatia. de ceder seus trajes, gestos e palavras ao outro. é tempo de enxergar as manchas do discurso alheio que já foi seu, de falar no tom que te irritou, atender ao telefonema que você mesmo discou e encarar como falsas as lágrimas que seus olhos já produziram.

assim nós continuamos brincando de não ver a verdade, defendendo indiscriminadamente o que julgamos justo pelo "x" que ocupamos. quando, na verdade, somos dois.

cegos de tanto ver.

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

exercício de descrição #1

república do peru, esquina com nossa senhora de copacabana. galeto. é o dono do restaurante, um frequentador assíduo ou alguém de quem eles cuidam. ele amedronta. seus poucos cabelos brancos contrastam com sua sobrancelha preta. preta mesmo, muito preta. e o cabelo é branco, branco mesmo. ele contrai a face, mastiga um palito de dentes, cospe e pega outro. fala qualquer coisa com um dos garçons em espanhol - donos de restaurantes costumam ser espanhóis em copacabana - e fecha os olhos. logo desperta e gesticula muito com os braços enquanto resmunga. levanta da cadeira vermelha de plástico, entra no restaurante e volta minutos depois, para a mesma posição, mastigando o mesmo palito, ou outro, não sei. não faço ideia se o bar é dele, mas cobra seis reais numa garrafa de cerveja quente. talvez daí o mau humor, daí a face contraída e os poucos cabelos. ele abre os botões da camisa, estica as pernas -não há mesa à sua frente -, e dorme enquanto almoço. definitivamente não volto ali. jamais. foi uma sensação de depressão adquirida. roubei o passado, as frustrações, os revides, as porradas que aquele homem levou da vida, e sequer sei o seu nome. engoli a comida rapidamente e voltei para casa pensando...

ele, se for o dono, espanta os próprios fregueses. se for um frequentador, não vale tanto à pena. e se for alguém de quem eles cuidam, precisa de mais cuidado.

da antologia: gente estranha que mal me acompanha

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

feriado, prolongue-se

janeiro promete ser um bom mês. festas, férias, é fim de ano pra quem estuda na minha universidade. janeiro vem como prelúdio de um ano bom. é o meu ano dos consertos, de recolocar a vida no eixo para poder aproveitá-la. o feriado foi ótimo, consegui reunir as pessoas que mais tenho gostado nos últimos tempos e até incluir outras nesse grupo que eu teimo em não deixar crescer. se o reveillon for a ilustração do ano, ele tende a ser são. como já foram tantos outros. com tantos outros. de tantos outros.

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

meu reveillon ainda não chegou. dia 5 é sempre aniversário da vó, mas meu reveillon ainda não chegou. depois escrevo mais, quando 2009 acabar estarei aqui de volta.

beijos do P.