segunda-feira, 9 de novembro de 2009

pontuando

a vida me dificulta a escrever nesse momento. os papéis de literatura ausente atormentam minhas noites e meus dias. a caixa de correio lotada de contas e fracassos. virtuais e reais. ainda busco uma justificativa poética para a ausência de sucesso no amor. talvez sejam esses pontos que eu cismo colocar no lugar das vírgulas - metáfora.

eu adoro os pontos. as marcações de tempo que eles causam. mas acho que os banalizei. em um linha distribuo três. quatro. cinco. e assim me perco. não sei quanto duram meus períodos, meus ciclos, minha paciência. a dificuldade de me livrar dos pontos é talvez o resumo da minha vida. recortada. com tantas pausas, hiatos e voltas eu engasgo, entendo sozinho aquilo que escrevo, porque os pontos são meus e só eu sei o quanto é difícil retirá-los daqui ou dali.

minha vontade é simplificar, não abrir as caixas de correio, não preencher formulários que me buscam formular, não me submeter a amar, nem inventar programas para os próximos anos, não frustrar a mim e aos outros, não assistir a documentários, nem colocar pontos assassinos de períodos. morreu.

porque eu, meu pontos e minhas contas morremos e nascemos três, quatro, cinco vezes por linha.

Aos leitores

Depois de conversar com uns amigos, ouvir argumentos a favor e expor argumentos contrários, decidi abrir o blog para comentários por tempo indeterminado. Gostaria que vocês buscassem comentar não só os novos textos, nem só os que vocês gostam. Quero, na verdade, entender que faz vocês perderem o tempo aqui.

terça-feira, 3 de novembro de 2009

do meu lado

comigo sempre foi assim,
o telefone toca e a vida muda.

de lado,
e de lado vou enfrentando as ligações,
os telefonemas
e o corte das linhas.

meus amigos sabem disso,
riem da minha cara,
de frente,
enquanto sorrio,
de lado,
enquanto choro,
de costas.

meus amores sabem,
que eu amo de lado,
ao lado,
distante.

os outros que eu pensava amigos mentem,
de cara, em volume baixo,
de costas,
para os meus amores,
que amavam de frente, de lado e de costas.

agora eu brinco nas palavras
fingindo não saber de que lado estou,
eu minto querer desvendar meus mistérios,
minhas soluções,
e venho pela poesia dizer aquilo
que não consigo explicar no bar.

enfeito,
recorto,
fantasio os defeitos,
a mostrar que me importo
com a rima da estrofe,
com os dados do agora,
com os lados,

de dentro e de fora.

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

quinta

eu vi duas mulheres se estapeando na porta do meu apartamento. elas xingavam loucamente. mãe e filha, batiam-se. a mãe fingia a idade e o sexo, contou-me a outra vizinha. travesti. pai. travesti pai que gritava como mãe com a filha que não o aceitava. era a síntese de Copacabana.

- toma um rivotril?
- enfia essa porra no cu!

desisti de acalmar a moça.

- eu sou sua mãe, sua vagabunda!
- só mulher pode ser mãe.

eu, assustado, entrei. mas saí novamente. era almodóvar demais pra uma madrugada de quinta. e a velhinha me gritava. separa, separa as duas, elas vão se matar! e eu separei, meti a mão no silicone do braço, do rosto, do peito. separei mãe e filha. pai e filha. ou filho. e ela, filha, pegou uma mala e voltou pra minas, voltou a fingir ser órfã. buscou o dinheiro com a mãe/pai e voltou para minas. exatamente desse jeito: dinheiro, socos, gritos e mala cheia.

de tristeza.

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

eu cantava no carro, fazia as curvas, corria as retas, tudo cantando. tudo pelo canto. e foi pelo canto que vi minha retina ser estuprada pela imagem que sempre me fizera amar. ela estava à minha frente de novo; no mesmo cenário de sempre, linda como de costume. aquela mistura de cores e sentimentos. dores e esperança. eu esperei um sorriso depois de buzinar. em vão, obviamente.

mas de qualquer forma, ela continua sabendo me tornar à vida. pela dor ou pelos beijos. me sinto vivo. sinto. sinto que importa sentir. mas não sei mais se faz sentido. isso de sentido nunca foi meu forte. meu fluxo tem movimento não-linear; variado. é lento e rápido. forte e fraco. mas independente da postura que ele assuma, quem manda e sempre mandou nele foi ela.

que me fez parar. olhar. refletir. e viver assim, torto.

domingo, 4 de outubro de 2009

sobre o fim de semana

uma praça bem à minha frente. varanda. pessoas. pessoas. as melhores e as outras. as melhores pessoas estavam comigo naquela varanda pintada de malte. as melhores palavras e luzes. os melhores escuros, sorrisos, temperaturas. as melhores histórias. eu agradecia. uma, duas, três vezes. eu agradecia porque não merecia, eu não merecia estar ali. o leblon é bom demais para ouvir nossas conversas.

eu precisava daquilo. daqueles. eu era tudo que queria de novo. era whisky. eu era a melhor pessoa que descobri em mim. meus afetos, meus desejos, minhas texturas, meus sorrisos, eles me contruíam, me construíram. eu fui feito por eles, sou cria, sou eles nos meus gestos.

eu passo mal. cabeça doída. tristeza na voz. nos olhares escondidos por meses de afastamento.

eles sabiam disso e vieram me tratar. trouxeram a minha vida à minha vida. os meus melhores rodeios, meus melhores sentimentos. aquilo que um dia eu fui e que posso voltar a ser. eles trouxeram. de volta. numa volta pela capital. numa visita. eles trouxeram com eles, pra mim, tudo que eu precisava.

obrigado.

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

"quantas vidas viveremos nós? quantas vezes morremos? dizem que perdemos 21 gramas no exato momento da morte. todos nós. e que caberá em 21 gramas? quanto é perdido? quando perdemos os 21 gramas, quanto se perde com eles? quanto se ganha? vinte e um gramas... o peso de cinco moedinhas. o peso de uma barra de chocolate. quanto pesa 21 gramas? quanto pesa o peso de 21 gramas?"

você ligou

quis saber sobre as drogas, de onde vim,
perguntou se havia sombras da partida,
viciada nelas você desligou viciada em mim,
enquanto eu sonhava e me viciava na vida.

terça-feira, 29 de setembro de 2009

ele não tem orgulho. desistiu dessa babaquice que lhe foi imposta por todo o resto. ele se ajoelha. chora. ele aceita as mais humilhantes situações. e sorri. ele sorri por não ter orgulho. ele constrói castelos, compra casas, carros, vinhos, a vida, ele faz poemas, músicas, cinema, ele vive por todas elas.

decidiu que não tinha mais orgulho. que viveria sem jogar, entregando-se a cada dia a um novo amor, inteiro. ele faria jantares maravilhosos, em espaços pouco comuns, à luz de velas. ele faria tudo que estava ao seu alcance, seria pisado, daria a cara a tapa! daria sim. ele não tinha vergonha mais por si. chorava na frente delas, abaixava a cabeça, dizia que amava com dez minutos de conversa. espantava quem se aproximava porque resolvera ser assim. completo.

- caralho, cara, você não tem orgulho não?

- meu amor, vivi mais de vinte anos e não tenho do que me orgulhar. me deixa, orgulho é o único sentimento que eu não mereço ter. nos outros eu ainda acredito, mas por enquanto, orgulho não.

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

sono leve

ela estava toda arrumada. e eu pouco humilde achei que era para mim. um dia haveria de ser para mim, e era aquele. era aquilo que eu sonhava. aquele vestido. eu vestido para aquele vestido. de barba feita e entregue ao sonho. até a luz era fria naquela noite, e eu que já esquecera como ser quente suava sem saber se as frases e gestos eram para mim.

as frases e os gestos eu não sei, mas o vestido era. era o vestido. vestida de sonho. exato. igual ao sonho. e ela falava por entre as palavras, pelo menos para mim. ela gritava por entre as frases sem sentido. eu não acreditava. olhava para as minhas mãos de cigarro filtro amarelo e pensava. era um sonho. ela ria para mim. ou de mim. mas ria, ria, e eu parado, olhando para o vestido. sonhando.

eu amava. por instantes eu amava. era poesia concreta à minha frente, era a dúvida do quanto duraria. eu engolia o momento sem saliva. engolia aquele momento seco. era frio e seco e eu não queria outra coisa. não queria ninguém além daquela que estava no vestido. o vestido do sonho. queria só vestir-me de sonho e sonhar, viver o sonho ali, entre as palavras e as mãos.

eu vivi. eu vivi meu sonho. eu vivi com o vestido o meu sonho. eu casei. casei e cansei. do sonho que desbotou.

domingo, 20 de setembro de 2009

uma última citação

eu sei que você pediu para que eu não viesse aqui expor nenhuma das nossas conversas. mas eu juro pra você que essa vai ser a última vez. eu sei que você vai ler, tenho certeza que apesar de tudo, você ainda não se livrou do vício de vir aqui.

e é por essa certeza que eu estou aqui, escrevendo sobre nós de novo. não exatamente sobre nós, mas sobre a vida e sobre as escolhas que somos obrigados a fazer para deixá-la seguir. quando decidi por esse caminho eu tinha total percepção de que poderia dar errado, como deu, mas mesmo assim achei que doeria menos. achei errado. me doeu cada minuto, cada olhar, cada lágrima. eu não consegui dormir nenhum dia bem. nunca tinha sentido essas sensações, nunca precisei, nunca havia feito nada parecido antes. e só eu sei como é péssimo. o agora é dolorido, você não querer mais falar comigo, nem atender o telefone, nem andar na mesma calçada que eu. mas pode acreditar que antes eu estava pior, me sentindo uma coisa qualquer que vivia uma vida sem merecimento. agora eu pelo menos tenho a certeza de que vivo o que mereço. o desprezo, a dor. mas não o teatro da felicidade. não isso. não mais. agora eu durmo e acordo certo de que fui eu que me joguei no abismo, vejo responsabilidade nos caminhos que escolhi e compreendo que cada palavrão que você me disse na nossa última conversa é justo.

não tem nada de literatura aqui. não tem estética, nem bordados, são palavras puras, seguidas umas das outras. e formando aquilo que precisava dizer há muito tempo: eu queria que você ainda gostasse de mim, que ainda visse graça nas nossas bobagens e brigas. que ainda ligasse para perguntar onde estou. e sei que tudo isso acabou pra sempre, mas eu queria que você ao menos conseguisse me olhar. você foi a pessoa mais importante que eu conheci ao longo da vida. sem dúvidas a mais perfeita e irretocável, e viver com alguém assim por quatro anos é ser lembrado a cada dia do quanto sou pequeno e pior.

não apague essa vida. beijos.

sábado, 19 de setembro de 2009

voltando #2

ela vive mais rápido que o amigo de olhos azuis. não entendo como atingiu esse nível, mas eu sei que atingiu. e, enquanto isso, eu, devagar, quase parado, quero o intervalo, a vírgula, o ponto. final. no alto da embriaguez factual, ela mente coisas rápidas, frases juntas, mente para si mesma tão rápido que seu cérebro não consegue detectar a mentira. e eu, sempre lento. sentindo cada mentira corroer meus dias e minhas noites, bem devagar, numa lentidão que beira a tortura.

será que ela não pensa em morrer? ou pensa demais? o tempo é efêmero para ela por que? e por que o meu é tão depois?

lentamente me encaminho para a morte, enquanto ela corre assustadoramente para a vida. sozinha.

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

imprimindo

nunca escrevi às sete da manhã. não depois de dormir. a vida muda em mim. como os desejos que só eram literais depois das dez.

domingo, 13 de setembro de 2009

eu vi uma coisa estranha. nem sei se vi, ouvi, toquei. sei que senti, senti uma coisa estranha.

era o contrário de um deja vu. eu vivia as coisas depois que elas deviam - mereciam - acontecer. e eu vivia mesmo. eu me belisquei. eu fechei e abri os olhos. eu vivia. depois. agora. depois. agora depois. e tudo acontecia tarde demais. os diálogos eram magníficos pois tinham fim antes do começo, nunca havia vivido algo parecido. já estava em casa e continuava voltando. como esconder o futuro de alguém que já o vive?

frase de efeito. volta à realidade. ao tempo dos homens.

pânico. eu vivo agora o presente no presente. logo eu que adorava aquela dança sobre a linha. eu que tinha certeza do que ia acontecer sempre, vejo-me agora dando um passo antes do próximo, e do outro, e caminho. só e mal acompanhado.

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

voltando #1

tem um homem de longos cabelos brancos na minha porta. homem de cabelos brancos e a porta. e a cadeira. e o tempo. longo. o homem de tempo e cabelos longos. parado, todo dia, na minha porta. e bebe. e bebe. e cumprimenta. e senta. cadeira. amarela.

tem um amigo. um amigo próximo de cabelos amarelos e olhos azuis. olhos azuis como os do homem de cabelos longos brancos. mas amarelo parece mais amigo. amigo de tempo pulsante. de tempo passando.

amarelo e branco. ajoelhados. na porta. na minha.

ajoelhados. amarelo e branco. e o tempo. e eu, de pé, vendo, tempo passado. tempo passando. tempo que passa devagar, a . de ainda, não, transformar, amarelo, em, branco. emesmoqueotempopasserápido, o azul é e será azul.