segunda-feira, 17 de maio de 2010

amor de carpete

todas as vezes a moça pensava ser a última. ela se esforçada para que não fosse, queria convencê-lo de que ele era mais feliz com ela. por vezes conseguia. na maioria delas não. ao mesmo tempo em que se subtraía e dava a cara aos tapas e ao gozo, ela se torturava. estava entregue e consciente disso.

com os joelhos arranhados pelo carpete manchado, ela chorava. não pela dor causada no ato sexual. mas pelo medo de que fosse a última vez. que dali pra frente seu joelho nunca mais visse o carpete tão próximo. ela tomava o ônibus de sempre, depois do banho, e, por horas, olhava a paisagem pensando se havia outra forma para viver.

a submissão tornou-se insuportável. ela pegou o mesmo ônibus e não voltou. ele também não ligou para saber. trocou o carpete que considerava velho, perdeu seu tempo de vista e seguiu.

dizem que os joelhos da moça ainda ardem às vezes, mas que ela nunca mais usou as roupas manchadas de sêmem. quanto a ele, continua no mesmo lugar, à espera de que um dia ela bata na porta novamente.

segunda-feira, 3 de maio de 2010

para não dizer que não escrevi feliz

o computador insiste para que eu escreva algo bonito, que demonstre os traços da minha nova vida. mas eu me mantenho alheio. custo a acreditar que estou onde estou. que sou quem há pouco gostaria de ser. a tela brilha para mim, e eu, sem tempo, prefiro viver cada segundo dessa plenitude.

minhas cores têm sido vivas e meus sorrisos sinceros. o blog cedeu sua organização à minha vida, e as palavras escritas a imagens guardadas na retina. nada me atinge. nada me tira do pedestal de ser feliz. eu sou porque mereço. porque te mereço e ainda mais.

é que com o computador exigindo que eu cuspa palavras fica difícil, mas é isso mesmo: eu precisava do equilíbrio que você me trouxe.

e foda-se o computador.

domingo, 11 de abril de 2010

amanhã

hoje eu só vou abrir a porta se for pra ver o seu sorriso. depois vou trancá-la. vou fugir do relógio que me diz onde estar. das obrigações quase religiosas que você cisma em lembrar. hoje eu quero apagar a luz e assistir televisão. programa de tv aberta se for possível. pra escapar de tudo que é mais refinado. pra escapar de toda essa bobagem que é rebuscar o óbvio.

e hoje o óbvio é esse. que eu quero ficar contigo, comendo chocolates, o dia todo, a vida inteira, depois de você sorrir atrás da porta.

quinta-feira, 8 de abril de 2010

sobre a minha parte nisso tudo

é que hoje, envolto nesse caos em que minha cidade se encontra, eu precisava escrever sobre as pequenas coisas que restam. aquilo que enxergo quando cruzo a porta do meu mínimo apartamento, e que penso ao deitar sobre a minha cama. isto aqui é um rabisco qualquer de frustração, ao ver como todos somos abaixo do medíocre. em sonhos e gestos.

é sobre a minha incapacidade de enfrentamento. sobre o prazer que tenho em não esvaziar a lixeira, mesmo passando por ela mais de dez vezes ao dia. e isso não é particular. é uma fuga geral, de presente e passado.

a minha contribuição para tudo isso é essa de não tirar os cigarros do cinzeiro, ou acumular louças para lavar. dentro desse meu mundo de trinta metros quadrados, não há enchente, nem deslizamento de terra, mas há uma vida sendo tratada com muito pouca responsabilidade.

e assim eu vou administrando aquilo que está ao meu alcance. fugindo. o tempo todo.


sábado, 27 de março de 2010

prisão particular construída

o tempo passa e vamos criando certos receios infantis. eu antes chamava qualquer um com quem tinha trocado dez palavras de amigo. e se, por acaso, ele transformasse, eu logo chamava de inimigo e praguejava. dizia cem vezes "eu te amo" ao mês, e na mesma proporção eu odiava. era sistemático. eu não tinha medo das palavras, não julgava cada frase e gesto. e se não julgava os meus, muito menos fazia com os dos outros. inimigos ou amigos.

viver assim é ser livre. é ser livre.

mas é escorregando na liberdade que eu começo a me privar. talvez os jurados da minha vida tenham escorregado antes de mim e, por isso, me sentenciam. não foram livres, ou foram por pouco tempo. tiveram poucos "eu te amo", poucos amigos de dez minutos, poucas intolerâncias. e por isso são pobres. constroem o amor devagarinho, as amizades como castelos de cartas.

eu não. eu não era assim, quando livre. eu chorava e sorria ao mesmo tempo, depois gritava ajoelhado bonitas canções, e se ninguém olhasse pra mim, eu gritava ainda mais alto, até começar a xingar.

se ninguém entende, se ninguém se liberta dessa babaquice toda, sou eu mesmo que estou errado.

nada de "eu te amo" mais. nada de fazer amigos, me basto com os que tenho. me basto com os grandes amores que vivi. não grito mais, nem ajoelho, nem xingo. vou fazendo tudo bem devagar como o mundo quer, e já morro de medo de perguntar "como você vai?", porque daí pra frente vai ser tudo muito lento.

como todos vocês querem, amigos e amores em potencial. preso.

quarta-feira, 10 de março de 2010

branco

se é para escrever feliz, sinto que ainda sou patético. talvez por ser tão nova sensação, ou por ser realmente intraduzível.

prefiro acreditar na minha incompetência. e na felicidade.

domingo, 7 de março de 2010

feliz ano novo

o ano começando e eu carrego responsabilidades das quais sempre fugi. meu ano novo chegou com certo atraso, mas me prova que 2009 inteiro foi um grande reveillon, com fogos, confusões e champagne.

foi o ano da transição, em que me reservei o direito de errar quantas vezes fosse preciso até descobrir o que é certo. foi um tempo de esticar os elásticos, blefar até que ninguém ousasse pagar para ver. foi ano de metáforas e mais metáforas. das mais pobres às quase incompreensíveis. foi uma fase de reconhecimento, de entender que fazemos escolhas quando não imaginamos, e que quando estamos certo de que aquele é o momento, provavelmente ele não passa de um qualquer.

agora é hora de saber quais frases me fizeram este que sou hoje. consciente, completo e feliz.

segunda-feira, 1 de março de 2010

sobre as mortes

morremos algumas vezes por dia. eu acho que morri mais nos últimos. mas não faço parte da maioria que liga a morte a sentimentos ruins, a sensações desesperadoras. se morro, renasço. se permaneço vivo, sobrevivo aos traumas e eles sobrevivem em mim. prefiro-me morrendo, quantas vezes necessárias.

sobrevivi aos inimigos próximos, aos inimigos particulares que dormem em casa. sobrevivi às palavras de dor, às de falso perdão. sobrevivi às músicas ensurdecedoramente tristes, às alegre em meio a lágrimas. sobrevivi à minha vida, e às várias tentativas de suicídio.

sobrevivia pelo medo da morte. que é mais bela quando se morre ao acaso, como morri.

e renasci, assim, súbito, naquele olhar de parto que você me fixou até me ver nascer sorrindo.

novamente.

Pausa

Eu vou fazer uma pausa rápida com a série porque tive dificuldade para escrever sobre a próxima personagem. Beijos.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

#6 - A amiga da esposa

Apesar da mulher ter aberto mão da maioria de suas amigas, uma ainda frequentava sua casa. Uma ainda lhe ajudava a escolher vestidos, ouvia suas confidências, lia seus rascunhos e invejava seu marido. Já no fim do casamento, a amiga posicionou-se claramente quanto a isso. Deixou cartas sobre a cama do casal endereçadas a ele; tentou marcar encontros regados a vinho e música durante as madrugadas; com a desculpa de consolar a esposa, dormia na casa dos dois e incessantemente atormentava o escritor, que nunca cedeu.

Numa ocasião, a moça despiu-se e deitou no lado da cama que cabia à esposa. Foi a última vez que pisou o chão daquela casa. Nosso protagonista, irritado, gritou pela mulher, que perdeu junto com o marido, a única pessoa que achava poder considerar.

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

#5 - A mulher

Todos os dias disposta a tê-lo sorrindo, ela pautava sua vida a partir das escolhas dele. Escritora talentosa, deixou a carreira literária de lado ofuscada pelo sucesso do marido. Embora não expusesse isso, carregava frustrações latentes por ter abdicado das ambições profissionais. Acompanhando o escritor por todas as suas viagens, a mulher conhecia mais a vida do escritor que ele próprio, decorava os nomes dos amigos e dos não-amigos, das esposas dos amigos, das amantes, dos fãs importantes. Ela era esposa, mãe, secretária, acompanhante e conselheira. Ela era ele, até o dia em que ele não quis mais assim.

Sua vida desmoronou naquele dia, havia um hiato de mais de dez anos. Ela se deu conta de que conhecia todas as pessoas que conviviam com seu marido, mas que em todo esse tempo, não havia convivido com ninguém, não criara laços, nós ou que fosse. Tinha parado de escrever, de ir ao cinema, de sonhar, de ser chamada pelo nome.

Teve de renascer aquele dia, num parto solitário e dolorido, que durou por muito tempo, porque ele nunca cortou definitivamente seu novo cordão umbilical.

sábado, 6 de fevereiro de 2010

#4

Nosso protagonista, nesse momento da vida, começa a conviver com dúvidas antes inimagináveis. Ele estaria no lugar certo? Era mais feliz agora que antes? Teria valido à pena a mudança de rumo? Ele continuava a ver beleza na menina do interior, nesse ponto nada havia mudado. Só que de uma hora para outra, as suas certezas tornaram-se escassas, seus desejos efêmeros, e ele iniciou toda história que eu pretendo contar aqui.

Sem saber, ele passou a conhecer e conquistar mulheres, seguidamente, compulsivamente, e não conseguia abandoná-las. A primeira a passar por isso foi a esposa, a segunda, a moça linda do interior. Depois dela vieram a terceira, a quarta, a quinta...

No próximo texto, começarei a dissertar sobre cada uma das mulheres, e sobre o que o homem viveu com elas. Por enquanto é só.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

#3

Ele, que nunca havia traído, teve certeza de que era hora. Depois recuou. A moça de interior sabia que ele era comprometido e ele queria o respeito dela. Passaram-se alguns dias, foi para casa, e divorciou-se. O escritor, dono da razão do amor, responsável pelas palavras que tinham poder, fiel à sua doutrina de apenas conquistar mulheres, apaixonou-se. O homem desconstruiu sua vida, transgrediu as regras, mergulhou na vontade.

Por meses ele conseguiu viver o sonho, trouxe a moça à capital, levou-a ao teatro, ensinou-lhe cinema, música, até literatura. Discutiu os próprios textos, recitou poemas, e ela decorava cada palavra que saía de sua boca. Ela amava cada vírgula que ele proferia, morava em suas palavras e chorava com os diálogos que construíam.

O homem, que não era besta, enxergava seu poder. Na verdade, esse cara sabia exatamente o que as mulheres queriam ouvir. Cada uma delas.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

#2

Uma mulher cruzou seu caminho, aparentemente sem nenhuma relevância. Ele, que nutria uma vontade exagerada de conquistar todas as moças, não se opôs à ideia de tê-la.

Começou pelo ego, como sempre. Só que aquele rosto doce realmente havia lhe encantado. Ele não sabia dizer ao certo por que, mas os cabelos longos, a palavra baixa, a transparência de sentidos e de sentimentos, tudo isso misturado, tinha mexido com sua cabeça. E tinha o sotaque também, interiorano, que ele não conhecia. Eles conversavam muito, e os olhos da menina brilhavam com as dissertações do escritor sobre o amor. Ela delirava ao ouvi-lo contar suas histórias, imaginando os lugares que ele tinha conhecido, as línguas que ele falava. E ele, delirava também, ao enxergar na moça aquilo que não mais via em outras: uma paisagem a ser pintada.

Foi nesse dia que o homem resolveu retomar a vida. Viver de novo. Dar novas cores ao quadro, que parecia finalizado, da sua vida.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

#1

Ele cresceu como qualquer homem. Errando, errando... e foi construindo a vida baseada nos erros que não voltaria a cometer. Até aí nada muito diferente dos amigos que o cercavam. Ele namorou mulheres bonitas, que se vestiam bem, que tinham bom gosto. Visitou lugares exóticos, morou na Europa, voltou, foi novamente a passeio, na companhia da mulher que elegera para ser a oficial. O homem - que não tem nome - sempre foi feliz no relacionamento. Um tipo de felicidade que ele não expandia à sua carreira profissional. Incomodava-se com tudo que era ligado a trabalho, prazos, compromisso, salário... Decidiu, portanto, viver de literatura e do dinheiro que porventura ganhasse com suas letras.

O escritor sabia que seus melhores textos eram sobre o amor e os pequenos traumas pelos quais passava, vez ou outra. Ele fazia sucesso entre as mulheres, e orgulhava-se disso em cada gesto que escolhia fazer, em cada palavra que decidia escrever, em cada roupa que resolvia vestir. Entretanto, isso sempre foi apenas uma forma de se sentir melhor e de escrever melhor. Até que um dia, foi posto de frente com um problema pelo qual nunca passara. Desde esse dia, sua vida estagnou.